terça-feira, 8 de agosto de 2017

Estudo inédito avalia o legado cultural dos Jogos Rio 2016


No dia 5 de agosto completa-se um ano desde o fim das Olimpíadas do Rio de Janeiro. O evento, que custou bilhões de dólares aos cofres públicos e deveria ser um marco na história do país, difundindo os aspectos culturais e fortalecendo a imagem do Brasil, no entanto, não deixou marcas permanentes no imaginário popular, seja aqui ou no exterior. Esta é a conclusão de um estudo inédito realizado pelo Institute of Cultural Capital, instituição ligada à Universidade de Liverpool, em parceria com a Escola de Comunicações e Artes da USP e a Associação Brasileira de Comunicação Empresarial – Aberje, com o apoio do Newton Fund, agência de fomento à pesquisa em humanidades e ciências sociais do governo britânico.
O estudo “Legado Cultural dos Jogos Olímpicos do Rio-2016” foi realizado a partir de uma análise profunda da mídia brasileira e britânica em períodos chave para a narrativa dos Jogos, onde foram identificadas as oportunidades aproveitadas e perdidas ao longo de todo o ciclo olímpico do Rio, desde 2009 até o início de 2017. De acordo com os pesquisadores, o contexto sócio-político brasileiro ocupou a maioria dos espaços midiáticos que normalmente se dedicariam à repercussão esportiva e cultural dos Jogos, sobretudo no período pós-olímpico, impedindo que uma narrativa positiva pudesse se estabelecer.
“Nossa pesquisa engloba todo o ciclo das Olimpíadas do Rio, desde o momento da escolha do Brasil como país-sede até a cerimônia de encerramento do evento. Infelizmente, os escândalos de corrupção e a grave crise financeira pela qual o país atravessa fez com que as notícias relacionadas ao esporte e à cidade do Rio de Janeiro ficassem em segundo plano”, afirma a pesquisadora Beatriz Garcia, coordenadora do trabalho e membro do Comitê Olímpico Internacional, que analiza o impacto cultural dos Jogos Olímpicos desde Sydney-2000. “As histórias que foram contadas na mídia durante o evento não ajudaram a mudar os estereótipos do Brasil. Está claro que a diplomacia e a comunicação de marca país e de marca cidade falharam, sobretudo pela ausência de um investimento estratégico em cultura.”
No total, foram analisados mais de 330 artigos publicados pelos veículos de comunicação no Brasil e outros 144 na mídia britânica em busca das narrativas estabelecidas pela imprensa sobre os jogos em momentos chave: a escolha do Rio como cidade-sede (2009), um ano antes (2015), o período dos Jogos (2016) e as retrospectivas do ano, em dezembro de 2016 e início de 2017. As análises de mídia foram relacionadas ao contexto sócio-político brasileiro nos mesmos períodos, para contextualizar a informação. Isso permitiu ao estudo comparativos entre os Jogos de diferentes anos, sobretudo os de Londres-2012.
Outro fator que contrubuiu fortemente para a geração de pautas negativas após os Jogos foram os escâncalos de corrupção envolvendo membros do Comitê Olímpico Internacional e a construção das arenas olímpicas, o abandono das estruturas após os Jogos, as dívidas milionárias deixadas pelo evento, a falência do estado do Rio de Janeiro, além da suspensão dos patrocínios de vários atletas brasileiros — entre eles alguns medalhistas olímpicos. Essas notícias ocuparam o espaço que poderia ter sido usado para lembrar dos êxitos da Rio-2016.
“O bom legado simbólico prometido pela realização das Olimpíadas Rio-2016 foi devorado pelas más notícias geradas em dimensões olímpicas. A imprensa tradicional, brasileira e britânica, nos períodos imediatamente pré e pós-Jogos, destacaram os recordes de violência, corrupção e instabilidade política. Nesse período, o Brasil queimou em uma pira de maus acontecimentos, deixando de lado a diversão, inovação e diversidade, aspectos culturais que seriam destacados pelos Jogos”, diz Paulo Nassar, professor da Escola de Comunicação e Artes (ECA-USP) e presidente da Aberje.
A Associação Brasileira de Comunicação Empresarial, em seu papel de think tank brasileiro voltado para as narrativas organizacionais, foi uma peça-chave para a realização do estudo. Ao lado do Institute of Cultural Capital da Universidade de Liverpool e do Grupo de Estudos de Novas Narrativas da Escola de Comunicações e Artes da USP, a Aberje abraçou o projeto com o objetivo de dar continuidade às pesquisas e ações que vêm desenvolvendo desde os anos 1990, como a série de Brazilian Corporate Communications Day, realizados em Nova Iorque, Londres, Paris, Milão, Buenos Aires, Mumbai, entre outras cidades globais, sempre buscando fortalecer internacionalmente a imagem do Brasil, de suas cidades, instituições e empresas.
O estudo completo será apresentado no próximo dia 15/8, em São Paulo, e em 17/8, no Rio de Janeiro, em eventos promovidos pela Aberje com a participação de Beatriz Garcia, Paulo Nassar e outros profissionais ligados à organização da Rio-2016.

sábado, 20 de maio de 2017

Franceses investigam compra de votos na escolha do Rio como sede da Olimpíada

Parque Olímpico foi construído pela Odebrecht Foto: Carlos Eduardo Cardoso|Agência O Dia

Procuradores do Ministério Público Financeiro da França estão em Brasília para investigar, em parceria com colegas brasileiros, suposto esquema de compra de votos de membros do Comitê Olímpico Internacional (COI) para a realização dos Jogos Olímpicos no Rio em 2016. A suspeita é de que delegados da organização tenham recebido propina em troca do voto favorável na disputa com Madri, Tóquio e Chicago pelo direito de organizar a competição no Rio.
A suspeita de que houve pagamento ilegal para a compra de votos de delegados do COI para a organização da Rio-2016 e de Tóquio-2020 vem sendo investigada pelo Ministério Público Financeiro de Paris, que já encontrou indícios concordantes de corrupção em ambos os casos. Segundo as investigações, três dias antes da sessão do COI que definiria a cidade-sede dos Jogos Olímpicos de 2016, realizada em outubro de 2009, em Copenhague, na Dinamarca, duas transferências que totalizaram US$ 2 milhões (R$ 6,3 milhões pela cotação atual) foram realizadas pela Matlock Capital Group, empresa com sede em Miami (EUA) e de propriedade do empresário brasileiro Arthur Cesar de Menezes Soares Filho, em favor de membros da família do então presidente da Federação Internacional de Atletismo (IAAF) e membro do COI, Lamine Diack.
Nessa época, o Grupo Facility, de Arthur Soares, tinha contratos de prestação de serviços da ordem de R$ 3 bilhões firmados com o governo do Rio, sob gestão de Sergio Cabral.
Os depósitos foram realizados pela Matlock em dois momentos: um primeiro de US$ 1,5 milhão (R$ 4,7 milhões) em 29 de setembro de 2009, em favor da empresa Pamodzi Consulting, de propriedade de Papa Massata Diack, filho de Lamine Diack. Uma segunda transferência, de US$ 500 mil (R$ 1,5 milhão), também proveniente da mesma empresa, beneficiou uma conta de Papa Diack na Rússia. Segundo o MP Financeiro da França, o voto de Lamine Diack em favor do Rio seria crucial para obter a adesão de dirigentes africanos, que votam em bloco nas sessões do COI.
A investigação do MP apura os vínculos entre Arthur Soares e Sérgio Cabral e a existência de um pacto de corrupção em torno dos Jogos de 2016, que envolveria as obras públicas com as quais o governo brasileiro se comprometeu junto ao COI.
Um dos focos de suspeita dos investigadores é se houve vínculos entre empreiteiras que se beneficiaram dos projetos de infraestrutura para a Rio-2016 e a suposta compra de votos. Mesmo depois de um primeiro desenho do parque olímpico ter sido fechado entre os técnicos do COI e da Rio-2016, a construtora Odebrecht, por exemplo, pediu mudanças nas instalações.
Uma vez vencida a disputa em Copenhague, empreiteiras brasileiras ficaram com grande parte dos contratos dos Jogos, alguns deles sem licitações e sem concorrência. À Odebrecht restaram obras como o Porto Maravilha e a Linha 4 do Metrô, além da Vila dos Atletas e o Parque Olímpico e outras instalações e estruturas de transporte. Num levantamento feito pelos investigadores, constatou-se que, dos R$ 38 bilhões previstos no orçamento original dos Jogos do Rio, a empresa, que está no epicentro da operação Lava Jato, ficou com contratos avaliados em R$ 26 bilhões.
Em nota, a construtora optou por não entrar em detalhes. “A Odebrecht não se manifesta sobre eventuais investigações e reafirma que vem cooperando com autoridades brasileiras e estrangeiras. A empresa está comprometida a combater e não tolerar a corrupção em quaisquer de suas formas.”

terça-feira, 18 de abril de 2017

Ex-prefeito Paes levou R$ 15 mi em propina pela Rio 2016, diz Odebrecht



O ex-prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, teria recebido R$ 15 milhões em propina por facilitação de contratos relativos aos Jogos Olímpicos e Paralímpicos do ano passado. Ele foi citado em delação premiada de Benedicto Barbosa da Silva Júnior, homem forte do Departamento de Propinas da Odebrecht. A informação foi relevada pelo jornal O Estado de São Paulo 


"Dessa quantia, R$ 11 milhões foram repassados no Brasil e outros R$ 5 milhões por meio de contas no exterior. O colaborador apresenta documentos que, em tese, corroboram essas informações prestadas, havendo, em seus relatos, menção a Leonel Brizola Neto e Cristiane Brasil como possíveis destinatários dos valores", relatou o ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF) em decisão de 4 de abril que mandou investigar Eduardo Paes.



O ex-prefeito também foi delatado pelos executivos da Odebrecht Leandro Andrade Azevedo e Luiz Eduardo da Rocha Soares. Segundo o primeiro, Paes também teria negociado repasse de R$ 3 milhões da Odebrecht para a campanha a deputado federal de Pedro Paulo (PMDB) em 2010. 


"Essas somas seriam da ordem de R$ 3 milhões, tendo a transação sido facilitada por Eduardo Paes, ex-prefeito do município do Rio de Janeiro, por meio de contato com o diretor Benedicto Júnior. Afirma-se, nesse contexto, que, no sistema 'Drousys', há referência a diversos pagamentos a "Nervosinho", suposto apelido de Eduardo Paes", narra Fachin na decisão que mandou investigar os peemedebistas. 



Em anexos aos termos de declaração, segundo o ministro do Supremo, Leandro Andrade Azevedo apresenta as planilhas de que constariam os pagamentos e e-mails em que reuniões teriam sido agendas e solicitações de pagamentos foram feitas. 



Dois anos antes, em 2014, Pedro Paulo teria recebido R$ 300 mil, 'de maneira oculta, para a campanha à prefeitura', segundo Benedicto Júnior. O pedido foi intermediado por Eduardo Paes e haveria registro no Sistema "Drousys" de pagamentos a "Nervosinho".


https://esportes.terra.com.br/

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Equipe de refugiados da Rio 2016 conquista prêmio esportivo Laureus


MÔNACO (Reuters) - Uma equipe de refugiados que competiu na Olimpíada do Rio de Janeiro de 2016 com 10 atletas de países como Síria e Sudão do Sul recebeu nesta segunda-feira o Prêmio Laureus de inspiração esportiva.
"Este prêmio é para as 65,4 milhões de pessoas deslocadas globalmente, que não podem ir para suas casas por causa de conflitos", disse a corredora de longa distância queniana Tegla Loroupe, chefe da missão do time, em uma coletiva de imprensa realizada em Mônaco.
"Cada uma das 10 pessoas inspiradoras de nossa equipe triunfou sobre a adversidade e suportou jornadas inimagináveis para alcançar a linha de chegada."
Escolhida a dedo, a equipe de refugiados de Síria, Congo, Etiópia e Sudão do Sul foi um dos destaques dos Jogos, participando de competições de atletismo, natação e judô.
Um dos que compareceu à entrevista coletiva de segunda-feira foi o nadador sírio Rami Anis, que realizou a arriscada travessia marítima da Turquia à Grécia depois de fugir de sua cidade-natal de Aleppo e foi parar na Bélgica.
"O esporte dá uma chance a todos, e o que aconteceu na Olimpíada do Rio mostrou a pessoas de todo o mundo que têm problemas e medo em suas vidas que há esperança", disse ele em um comunicado do prêmio.
O Comitê Olímpico Internacional (COI) ainda não decidiu se irá enviar outra equipe de refugiados aos Jogos de Tóquio de 2020.

(Por Alan Baldwin em Londres)



domingo, 20 de novembro de 2016

Do medo ao sucesso: Thomas Bach diz que Rio 2016 é "caso de estudo"


Thomas Bach discursa durante a ANOC, em Doha (Foto: Mark Runnacles / Getty Images)
Antes dos Jogos do Rio, a mensagem era de temor. Com o país-sede em meio a uma crise econômica e política, grande parte da população temia pelo fracasso do evento. No fim, porém, a primeira Olimpíada realizada no Brasil foi alvo de elogios. Em Doha para a Assembleia Geral da Associação de Comitês Olímpicos Nacionais (ANOC), Thomas Bach, presidente do Comitê Olímpico Internacional, ressaltou o sucesso dos Jogos diante de um panorama pessimista.
- Vocês lembram das manchetes. Sobre segurança, sobre as obras, sobre a política, sobre a zika. Muitos especialistas falaram que deveríamos cancelar os Jogos Olímpicos. Isso tudo quando chegamos. Foi uma atmosfera de dúvida, de perigo. Entre a a opinião que foi publicada e a opinião do público, a percepção e a realidade. Talvez seja isso um caso de estudo. Porque, depois de tudo isso, quando olhamos com uma certa distância, podemos ter certeza de que os Jogos tiveram sucesso em todos ou na maioria dos aspectos. Foi além do que imaginávamos. Nós sabíamos que tínhamos um grande desafio pela frente.
Em seu discurso, Bach também ressaltou os números dos Jogos em todo o mundo. 
- Se você olhar os números de transmissões, 75%. Nas mídias sociais, mais de 5 bilhões de visualizações. Isso quer dizer que mais da metade da população do mundo estava assistindo aos Jogos. Isso é muito expressivo. A minha geração, que ainda vê televisão, e a geração mais jovem, que é ligada às mídias sociais, foram impactadas pelos Jogos.
Em sua maioria, os discursos feitos na ANOC são de elogios aos Jogos do Rio. Presidente do Comitê Olímpico do Brasil e do Comitê Rio 2016, Carlos Arthur Nuzman, que fará um relatório sobre a Olimpíada nesta quarta-feira, se disse surpreso.
- Eu acho excepcionalmente bom. Tem sido uma grata surpresa, os elogios, reconhecimento, as palavras que estão sendo usadas. Acho que isso é altamente importante para o Brasil, mostrando que, com todas as dificuldades, acertamos e superamos. Entramos para a história com Jogos maravilhosos que foram. Estou muito feliz com isso.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

A história do criador das Paralimpíadas


Atletas nos Jogos de Roma em 1960, quando competições para deficientes foram incorporadasImage copyrightPRESS ASSOCIATION IMAGES
Image captionAtletas nos Jogos de Roma em 1960, quando competições para deficientes foram incorporadas

http://www.bbc.com/portuguese

Um médico judeu que escapou da Alemanha nazista está na origem das Paralimpíadas, evento que começa nesta quarta-feira (7) no Rio de Janeiro.
Ludwig Guttmann ajudou a fundar e comandou a divisão de tratamento de lesões de coluna no hospital de Stoke Mandeville, na Grã-Bretanha. Lá, muitos dos pacientes eram ex-combatentes de guerra e Ludwig usou o esporte para mudar suas vidas.
"Nós começamos com ex-soldados, ainda durante a guerra, primeiro com jogos simples, como dardo, sinuca e uma espécie de boliche. Aí vi como aqueles homens reagiam, não apenas fisicamente, mas psicologicamente", disse o alemão naturalizado britânico em imagens de arquivo da BBC. Ele morreu em 1980.

Guttmann comandou a divisão de tratamento de lesões de coluna em hospital britânico
Image captionGuttmann comandou a divisão de tratamento de lesões de coluna em hospital britânico

Guttmann promoveu as primeiras competições públicas para deficientes na abertura dos Jogos Olímpicos de Londres de 1948.
Nos anos 60, essas práticas foram incorporadas aos Jogos Olímpicos. Nasciam, assim, as Paralimpíadas.

'Severo' e carinhoso

O tenista de mesa Philip Lewis, que participou das Paralimpíadas de 1962, disse à BBC que Ludwig era "um tanto severo com sua equipe e com os paraplégicos".
"Mas por trás de tudo havia aquele enorme carinho. Ele fazia você perceber que ele queria o melhor e que você tinha que encontrar um caminho."
Uma das maiores atletas paraolimpícas da Grã-Bretanha, Grey Thompson afirmou, em entrevista à BBC, que os deficientes têm uma dívida com o médico.

Para atleta cadeirante Grey Thompson, deficientes têm uma dívida com GuttmannImage copyrightGETTY IMAGES
Image captionPara atleta cadeirante Grey Thompson, deficientes têm uma dívida com Guttmann

"Ele acreditava que nós deveríamos viver uma vida normal. E foi persistente num tempo em que as pessoas provavelmente imaginavam que ele fosse um tanto louco por acreditar que deficientes poderiam ser ativos."

Paralímpiadas hoje

É a vez do Rio de Janeiro sediar a Paralimpíada, mas os bem-sucedidos Jogos de Londres colocaram um desafio não apenas para o Rio, mas para qualquer cidade que queira receber a competição.
A capital britânica recebeu elogios por realizar um evento de casa cheia e "abraçado" pela mídia local. O britânico Phillip Craven, presidente do Comitê Paralímpico Internacional (CPI), sabia que a tarefa de repetir tal sucesso seria mais difícil no Brasil. Só não imaginava o quanto.
A duas semanas da Cerimônia de Abertura, no Maracanã, o CPI estava fazendo, junto com o comitê organizador da Rio 2016, malabarismos para tentar fazer com que a versão "enxuta" da primeira Paralimpíada na América do Sul não fosse um passo para trás na luta por mais visibilidade e reconhecimento.
Mas com a explosão na venda dos ingressos verificada na reta final para a inauguração do evento, o cenário começou a mudar. E agora, após a bem sucedida cerimônia de abertura, a expectativa passou a ser bem mais otimista.

domingo, 21 de agosto de 2016

Cerimônia de Encerramento fecha ciclo de grandes eventos esportivos no Brasil


A cerimônia de encerramento dos Jogos Olímpicos marca o início do tempo de fazer contas. O ciclo de grandes eventos, que incluiu a Olimpíada e a Copa do Mundo de 2014, consumiu pelo menos R$ 66 bilhões de recursos públicos, um valor superior ao PIB de quase 80 países, sem falar no dinheiro gasto com os Jogos Pan-Americanos, em 2007, e os Mundiais Militares, em 2011. Os dados foram levantados pelo Estado a partir de planilhas de custos apresentadas pelos comitês organizadores dos projetos.
O debate sobre a fase dos megaeventos vai além da matemática e incluiu discussões acaloradas sobre estádios considerados “elefantes brancos” em Manaus, Brasília e Cuiabá, um complexo esportivo na Barra da Tijuca, no Rio, que gera dúvidas em relação à manutenção, e dramas coletivos e políticos, como a derrota da seleção brasileira para a alemã por 7 a 1, a onda de protestos de 2013 que minou a popularidade da presidente Dilma Rousseff e abriu caminho para seu impeachment, a aposta de uma parceria entre lideranças do PT e do PMDB com empreiteiros e investidores em grandes obras e o rombo nos orçamentos da prefeitura carioca e da União.
Quando o Rio ganhou o direito de receber os Jogos em 2009, a escolha de um mercado emergente parecia óbvia. Sete anos depois, o evento desembarcou num país em recessão, com problemas para atrair patrocinadores, em uma crise política, questionamento social e desemprego com taxa de 11%.
Tanto a Olimpíada quanto a Copa foram negociadas por um grupo que incluía especialmente o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o ex-governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), o prefeito do Rio Eduardo Paes (PMDB), empreiteiras como a Odebrecht e cartolas envolvidos em escândalos há pelo menos uma década. Operações da Polícia Federal e do Ministério Público minaram o poder e a influência do grupo, que tinha por discurso a parceria entre os setores público e privado.
A promessa é que os eventos originalmente não contariam com recursos públicos. Hoje, governos como o do Distrito Federal, do Amazonas e do Mato Grosso pressionam o Planalto e o Congresso para compensar os rombos causados pelas obras do Mané Garrincha, da Arena Amazônia e da Arena Pantanal. No caso da Olimpíada, mesmo a Vila dos Atletas, um condomínio de 31 prédios de luxo edificado naa Barra da Tijuca pela Odebrechet e pela construtora Carvalho Hosken, foi praticamente todo financiado pela Caixa Econômica Federal.
O governo interino de Michel Temer foi obrigado ainda a sair ao resgate do evento olímpico. “A sociedade brasileira precisa ver isso como um investimento”, argumentou Andrew Parsons, presidente do Comitê Paralímpico Brasileiro.
PROMESSAS
Algumas promessas foram abandonados no caminho. Em 2009, os organizadores diziam que os Jogos seriam usados para despoluir a Baía de Guanabara. Em meio às provas de vela, barcos eram vistos na água recolhendo lixo.
O projeto de desenvolvimento tocado por Lula e pela presidente Dilma Rousseff, que incluía os grandes eventos, engessou a atuação de movimentos populares e sindicatos ligados ao PT. Com um efetivo de 23 mil agentes no Rio, o atual governo procurou desvincular problemas na segurança com os Jogos. Numa rápida visita ao parque olímpico na última quinta-feira, o ministro da Defesa, Raul Jungmann, disse que a morte do soldado Hélio Vieira, da Força Nacional e as mortes de pelo menos quatro moradores do Complexo da Maré, no Rio, em ações punitivas da polícia, não têm ligação com a Olimpíada. “Nós entendemos que não há vínculos.”
A corrupção também marcou os sete anos de preparação da cidade. As obras em Deodoro foram alvos de uma operação da Polícia Federal, enquanto o próprio Maracanã passou a ser investigado pela Operação Lava Jato. No total, o MPF tem cinco investigações abertas em relação ao evento.
Um dos legados, porém, será a nova estrutura de transporte na cidade, como a linha 4 do metrô, até a Barra da Tijuca, o corredor de ônibus BRT e o VLT, Veículo Leve Sobre Trilhos, que ligou o aeroporto Santos Dumont à rodoviária. Os custos ficaram R$ 10 bilhões acima do orçamento inicial, de R$ 28,8 bilhões. Ainda que com custos inferiores aos Jogos de Londres em 2012, a Olimpíada brasileira terá gastos 40% superiores ao que foi aplicado para a Copa do Mundo de 2014, que saiu por R$ 27 bilhões.
Assim como ocorreu com a Fifa em 2014, o COI em 2016 não esconde sua satisfação com a renda. A entidade do futebol arrecadou R$ 15 bilhões, contra R$ 18 bilhões pelo COI. “A entidade, os patrocinadores e os parceiros comerciais estão muito satisfeitos”, disse ao Estado o presidente de honra do COI, Jacques Rogge. “Com o fim da Olimpíada, termina a fase de complexo de vira-lata do Brasil”, comemorou Mario Andrada, diretor executivo da Rio-2016.

Longe das estratégias de comunicação, a aposta nos megaeventos deixou um legado misto. O fim de uma década de obras, planos e pressões não gerou todas as mudanças prometidas. Não houve um atalho para o desenvolvimento. Mas a Olimpíada e a Copa colocaram o Brasil no foco internacional e se transformaram em espelhos do País ao mundo.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...